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O VENTO SOPRA DO NORTE. ENTREVISTA TRADUCIDA AL PORTUGUÉS.

O VENTO SOPRA DO NORTE. 

Entrevista a Victoria Suéver. Traducida al portugués.
Revista Leer en Madrid.

Victoria Suéver está segura do que afirma: o jet-set madrileno conhece bem o Moçambique paradisíaco onde fez ambientar a sua primeira novela. Era este país africano uma das mais valiosas possessões portuguesa, uma terra de oportunidades onde muitas pessoas encontraram um lugar fértil onde desenvolver a sua inteligência e ânimo, pessoas como a nossa protagonista Amália, que soube alcançar em Moçambique uma liberdade impensável na metrópole. Suever escreveu uma novela que começa com a jovem Amália e a sua contínua luta num território africano fascinante.

O vento sopra do norte, a sua primeira novela, tem já um longo caminho percorrido. Até agora, que balanço faz?

Vivemos num tempo em que um leitor é um tesouro. Há que valorizá-lo muito, tendo em conta que muito pouca gente lê livros e ainda menos os compra. Um escritor tem que eleger o público a que deseja chegar, tem que personalizar a sua própria forma de se promover, com um estilo e discurso próprios, tanto na altura de escrever como na ocasião de se relacionar com os seus leitores, porque são eles que investem tempo e dinheiro na tua obra. Por outro lado, hoje premeia-se mais a resistência do que o talento. Se decidimos promover-nos através das redes sociais, teremos então que dedicar ao leitor muito tempo de modo a satisfazer as suas necessidades.

O pano de fundo da sua novela é Moçambique, uma colónia portuguesa que se tornou independente bem tarde.

O foco da descolonização afectou sobretudo as grandes potências, França, Grã-Bretanha e Espanha, todas as que litigavam para ficarem com os portos comerciais mais importantes, dos localizados entre a Europa e a América, ou a Europa e a Ásia.

As colónias portuguesas não tiveram estruturas militares até meados do século XX: os portugueses não eram invasores e os nativos não desejavam expulsá-los assim com tanto afinco, até porque a sua presença era marcada apenas pela criação de portos comerciais. Os movimentos de emancipação na América Latina sempre levaram os crioulos – aqueles que iam estudar à capital da metrópole e que voltavam licenciados – a desejar a independência do seu país de origem. Normalmente eram os filhos da primeira ou da segunda geração de colonos, de elevado nível económico e com acesso às universidades europeias. Nos países africanos isso não sucedia. As etnias moçambicanas estavam muito distantes, conservavam os seus costumes e detinham rivalidades entre elas. Os portugueses não se envolveram muito no modo de vida dos nativos, pelo que estas não se modernizaram, não podendo aceder às universidades em Lisboa até meados do século XX.

Como se constrói uma personagem, na micro-história, na grande história, sem a converter numa porta-voz das ideias da sua autora?

A dinâmica da ficção histórica levou-me a escrever esta novela com total objectividade, sem manipular dados, fiel a todos os acontecimentos e feitos documentados. De modo algum, ao escrever, quis manifestar preferência por alguma das minhas personagens históricas.

A partir destas personagens intocáveis, criei outras, fictícias, que entram e saem no decurso da crónica histórica, levando-lhe ambiente e musicalidade. Creio que ao meu leitor lhe interessa, acima de tudo, a narração paralela das pessoas comuns, que cavalgarão juntamente com os documentados pela história com maiúscula.

No resto, a minha narrativa intra-histórica tem que ser credível e trazer consigo sentimentos de amor, medo à morte, vingança, etc. As personagens de ficção que crio devem falar e pensar como o faziam à época que trato; sem alterar os eventos principais. São as minhas personagens ficcionais as que têm que manter o leitor preso, com o livro entre as mãos, sem vontade de o largar.

Com as micro-histórias que desenvolvo ao longo da minha narrativa, pretendo estabelecer contrastes entre os grandes governantes ou reis da história já escrita, e o devir das gentes do povo chão. Porque retrato preferencialmente sociedades rurais e humildes, de camponeses e pescadores, vivendo no limiar da sobrevivência. Retrato as pessoas que nunca aparecem nos livros.

Livros como o seu são o guia turístico perfeito para visitar, de uma maneira pessoal e única, um país. Diga-nos como seria uma viagem de mão dada com o seu livro.

É uma casualidade que, no meu livro, uma das personagens faça uma viagem através do país. E, embora ali as vilas tenham mudado de nome, e as praias virgens se tenham enchido de hotéis, e os palmeirais tenham secado, e nas cidades coloniais enxameiem veículos e edifícios modernos, Moçambique ainda mantém laços com o seu passado. A natureza, as suas urbes e muitos dos seus monumentos podem, ainda hoje em dia, ser rastreados a partir do meu livro
Basta olhar o índice, onde se enumeram no livro as catedrais do país, os baluartes que ainda se conservam de pé, as estações de comboio, os portos, as praias, os arquipélagos, clima, e formas de vida que, em alguns lugares, fazem a divisão entre os nativos com os seus costumes tribais e a população branca urbanizada.

Se o que se pretende fazer é descansar e conhecer belas praias, hotéis luxuosos e gastar muito dinheiro, pode-se fazê-lo de avião ou barco, de cidade em cidade, desde Maputo, a capital, comercial e histórica, com a sua luxuosa zona colonial, o Mercado de Xipamanine, o Central e a caótica cidade moderna, repleta de trânsito e arranha-céus – ou a formosa praia da ilha de Inhaca, que fica perto, aonde passar umas horas e só depois regressar.

Movimentando-nos sempre para norte podem visitar-se as principais cidades: Xai-Xai, Inhambane, Vilanculos, Beira, Quelimane, Angoche, Nacala e Pemba. Estas cidades todas costeiras, têm defronte a elas arquipélagos de ilhas paradisíacas como Barazuto, Quirimbas, Ilha de Mozambique, Ilha Paraíso, ou uma ilha privada, Madjumbe Island. Turistas de luxo, como la rainha Máxima da Holanda, a cantora brasileira Preta Gil ou Sonsoles Suarez (filha do ex-presidente Adolfo Suarez), e o seu actual marido, o moçambicano Paulo Wilson, DJ da discoteca Ten con Ten, na moda com o “cool set” madrileno, são visitantes assíduos de este lindo país.

Outra forma interessante de viajar é por terra, de comboio ou em camiões, em contacto com as populações, em plano-aventura. Partindo de Maputo, até ao norte, avistando animais e desfrutando da prolífera vegetação, a escolha seria a de passar por todos os Parques Nacionais: Limpopo, em Gaza donde poderá observar no seu habitat, várias espécies de animais selvagens, sobretudo elefantes, ou a Reserva Natural de Gile. Algo imprescindível é o avistamento de golfinhos ou tubarões baleia em Tofo ou no Canal de Mozambique. Em Quelimane, capital de Zambézia, onde para além disse, encontrará centos de espécies de aves. Para mergulhar ou fazer snorkel, o Parque Nacional de Barazuto e das Quirimbas, com os seus recifes de coral, peixes multicores, e cabanas ao pé de praias de areia branca resplandecentes e intactas, ali mesmo onde ainda tartarugas desovam ovos.

E terei que mencionar as cidades interiores, como Tete, Niassa e Nampula, onde existe outro tipo de belezas: a montanha de Gurue, a barragem do Niassa, a maior de África e las comunidades locais que nos convidam a ficarmos nesta “terra da boa gente”.

Javier Moro diz que cada livro leva-lhe três anos: um para documentar-se e viajar, outro para escrever e o terceiro para o divulgar.

Como é o seu processo?

A mim este livro levou-me mais tempo, creio que por ser a minha primeira obra. Visitei Lisboa, Aveiro, Coimbra, Porto, Évora, Elvas, Beja, Vila Praia de Âncora, entre outras cidades e lugares portugueses que aparecem no meu livro, para poder descrevê-los bem.

Chegou um momento em que a informação ao alcance da mão se me esgotou, e fui a Lisboa para “mergulhar” entre museus e bibliotecas, aprendendo português para poder assimilar mais informação, documentada e preciosa do meu livro.

Viajar para Moçambique e conhecer o país não foi o que me levou mais tempo. Mas sim estabelecer relações com pessoas de idade avançada, de mente clara e dispostas a partilhar comigo vivências da sua juventude, evocando antigos “modus vivendi”, o aspecto que tinham as cidades de época, os mercados e os transportes.

Mais de um ano estive em contacto com semelhante memória viva através da Internet. Às vezes avançava no meu relato e o dava a ler a quem poderia tê-lo protagonizado. Refiro-me a pessoas de idade avançada, moçambicanas que, ao lê-lo, me corregiam erros. Na época que descrevo, era usual deslocarem-se por Mozambique em barco, a selva era perigosíssima e não existiam estradas, nem bombas de gasolina para todos os trajectos que podia imaginar no meu livro. Assim, ali estava eu reestruturando o que já tinha escrito, reescrevendo todo o argumento do meu livro para que o relato fosse plausível e não somente verosímil.

Escrever o livro levou-me três anos, incluindo-se neste período o tempo necessário para me documentar. Documentava-me de acordo com a orientação da minha história. Divulgo o meu livro há dois anos, outros, e creio que não o devo largar de momento.

Vargas Llosa usa sempre a mesma caneta para escrever, Isabel Allende acende uma vela e começa sempre a sua nova novela no mesmo dia de cada ano… Tem algum capricho de escritora?

Sim, eu também tenho caprichos de escritora e alguns hábitos pouco convencionais. Escrevo quase sempre de madrugada, em companhia da lua cúmplice das minhas ideias. Assim, o Sol não queima as minhas palavras. Escrivo além do mais com uma grande garrafa de água por perto e os telefones apagados. O silêncio, para mim, é imprescindível.

Alexandre Monteiro–



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